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Sábado, Junho 12, 2004


Um presente inesquecível

Eu tenho duas ou três idéias sobre elas. Antes de tudo, tenho muitos afetos divididos com elas.

Ontem, lendo na cozinha de nossa casa, pensei em todas elas que passaram por minha vida e como todas se resumiram n´Elas. Essas três são pessoas diferentes de mim, talvez por isso eu tenha um tamanho passivo afetivo com (e por) elas.

Não é muito justo que num dia assim eu declare isso, publicamente, por três e não por uma.
Esta declaração quer se encaixar no triângulo afetivo e feminino de minha vida.
A presença afetiva é sempre a certeza dos quatro Amaral Queiroz, a presença física hoje é de três.

É por isso que, hoje, cedo ao mistério e à atração produzidos pelo três, como fez Gustavo Corção, ao analisar Chesterton em "3 Alqueires e uma vaca", uma deliciosa incursão pelo mundo sempre de bom-senso e bom humor do inglês G.K.C. que eu trouxe do "Beco dos Livros" em Porto Alegre pra meus 3 (x2) leitores.

"O número um é uma insustentável e vertiginosa origem; nu, cru, imóvel e absoluto, ele lembra a solidão de um deus. No número dois começa a história, ou uma caminhada: um, dois, um dois... Todo casal jovem, que obedece às regras do jogo, começa por esse ritmo dual, por esse compasso binário, à espera do dia em que os dois sejam três, e em que as desproporções do casal se nivelem numa outra proporção. Em geometria, também, enquanto estamos nos teoremas das retas que se encontram ou não se encontram, a história parece irreal, como se estivéssemos a vasculhar os infinitos com varas desmedidas em nossas mãos. Quando encontramos o triângulo temos a impressão de uma conquista ou de um terreno bem demarcado..."

"Temos além disso uma forte razão para ver no número três um sinal de perfeição: são três as Pessoas da Santíssima Trindade, e é estranho pensar que são Três, do mesmo modo que na família humana e nos lados do triângulo."


O bem-humorado e bem-pensante inglês que despertou tais pensamentos do pensador católico brasileiro GC (só agora me ocorre que duas das 3 letras do nome de Chesterton estão no de Gustavo!) - Chesterton, era um homem de proporções avantajadas - este clichê abominável para um homem gigantesco. Chesterton era dotado de cavalheirismo na mesma proporção, este dom que se vai perdendo; era dono de uma cortesia, hoje ainda mais rara do que nos tempos de Gustavo Corção.

Conta uma lenda que, um dia, Chesterton cedeu seu lugar num ônibus a três damas. Os nomes das três damas, depõe Gustavo, não foram registrados, mas o símbolo da presença delas permanece como mais um emblemático três. O volumoso Chesterton em um ônibus inglês, de incerto destino, deixou mais do que três idéias, com três damas.

Eu, franzino, flaquito, tenho hoje três damas em minha vida que poderiam fazer valer o chamado dia dos Namorados como um dia para se recuperar algo mais do que os êxitos do comércio.

O próprio Gustavo nos fala, com argumentos convincentes, que nada tem o bispo ascético e celibatário da Idade Média, São Valetim, com o "frívolo dia dos Namorados". Acho mais apropriado a prática luso-brasileira de aproximá-lo de Santo Antonio, cujo dia se comemora de fato no 13 de junho.

Mas, convenhamos, que num mundo cada vez mais insípido e desprovido de cortesia, ressaltar o amor cortês pode ser um mérito para todos os cavalheiros que resistem em dizer que a Idade Média não é um período de trevas e que a Cidade antiga tinha muito de valores que se foram perdendo com os contratos sociais elaborados e negociados desde então.

Hoje gostaria de exaltar, como aquele moço do anti-exemplo Chestertoniano, que grava seu amor no tronco de uma árvore, o amor a essas três damas: Sherazade, Maíra e Cecília. (E todas as damas que o devir amoroso me trouxe aos braços se sentirão incluídas por certo, com uma certa nostalgia do amor que não se confirmou).

Há exatos 19 anos, também num dia dos Namorados, Sherazade resolveu nos dar um presente: eu e Maíra, ansiosos (como somos desde sempre), assistíamos a chegada de Cecília, numa maternidade de Goiânia.

Ela recebeu desde logo o nome de minha avó materna (a única que conheci, de resto) e veio ao mundo nessas manhãs de junho em que as sibipirunas velhas põem bagas pelo chão, em que o céu se enche de um azul de Matisse.

Ela veio ao mundo com a doçura de uma goyana com a carinha de sua avó Cecília, com a carinha de nordestina - para desencanto dos Amaral Corrêa, logo desfeito à medida que seu rosto se parecia mais e mais com as italianíssimas carinhas de todos os nenéns Amaral Corrêa.

Branca como a mãe, tinha o preto dos meus cabelos. O doce de seu olhar fez com que nos primeiros anos dispensasse a doçura de sorvetes e similares. Só aprendeu a prová-los por insistência da mãe.

A música, de que herdou o nome da padroeira (Santa Cecília), aprendeu-a quase sem esforço.

Tudo que significa aprendizado nela parece que não demanda esforço. Há nela uma naturalidade que, às vezes, exaspera o pai ansioso.
A praia, conheceu-a em tenra idade, sempre comparado ao "muito antes de nós" (papai e mamãe) e a lembrança da primeira fotografia na praia é um testemunho de que misturou a areia de Santa Catarina aos sonhos dos jovens pais que a imaginaram desde logo a arquiteta de novos sonhos e imagens.

A elegância discreta herdou de algum nobre lusitano (ou italiano) escondido nas dobras de sua origem. Com a naturalidade de quem nasceu assim, tem modos de uma nobre sem título. De suas fotos, destaquei uma que um Natal antigo me recupera sua postura de princesa de uma corte portuguesa, com certeza - não um Queiroz (nós, esses pobres diabos que nunca fomos nobres).

Ela negou nossa expectativa inicial e encaminhou-se para a Engenharia, com uma determinação que a fez ter sucesso em várias escolas.
Um dia desses, em seu quarto na "república" em que mora na cidade paulista de São Carlos, folheei seu Caderno de Cálculo e pensei em nossas vidas, como um entrelaçar de sonhos, eu, físico (e escritor) frustrado contemplando a disciplina discreta de uma dama que ajudei a criar.
Uma jovem adulta é, hoje, meu presente de 19 anos, eu que tanto deambular quase ponho a perder a relação dessa nova estirpe: os Amaral Queiroz.
Hoje, somos três a comemorar o dia dos Namorados e o Aniversário de Cecília.

E assim tenho três damas que me acompanham.

Posso olhar o sábado como aquele moço antigo que olha o enlace dos nomes no tronco da árvore.

Há muitas tentativas de sermos vários. Há muitos chamados de não sermos (ou estarmos) juntos no que Chesterton chama de "The Superstition of Divorce", mas atendemos a um chamado. Confirmamos nossos votos a cada dia, com amor e perdão.

Olho para o meu presente com a gratidão de quem refaz um juramento. Olho para meu presente como para uma metáfora do universo: em nossa casa, elaboramos todo dia a química do relacionamento, quando na maior parte do tempo estamos em dois, pensando em tudo que somos.
Eu fui digno de receber dádivas de Deus: órfão, tenho uma família; pecador, tenho um paraíso terrestre a meus pés; impuro, tenho a pureza a rodear-me; incauto, tenho um conselho sábio a cada encontro; e isso me faz persistir na busca da virtude.

E posso, então, dizer como a amiga virtual Sue Medeiros: "...pois eu completo o que Gustavo Corção disse, e digo que fecundo é o perdão..."
Pensando bem, esta fecundidade é minha maior dádiva. De todos os lados.

Sigo, montado em meu Rocinante, com o escudo da Fé, o brasão desta família nova: os Amaral Queiroz, de olho na corte lusitana, me batendo contra os monstros terríveis do mau-gosto, da descortesia, do desamor e da falta de afeto.

E como Gustavo está de novo certo nesta lógica: "O número em geral é uma coisa terrivelmente pura que logo no primeiro encontro diz tudo o que é...", se você veio aqui por vez primeira, por favor, eleve o 3 à potência que lhe interessar, exceto à potência Zero, para que jamais seja Um só.

Amitiés,
BetoQ.
Ah, e Feliz dia dos Namorados.


Escrito por Adalberto Queiroz às 13:52

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