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Dia 25 de julho, dia do Escritor
Nós somos você.
Por mais que eu me esforçasse esta editora virtual (blogger Brasil) não me permitiu postar nada à propósito do dia do Escritor, que coincide com o dia de São Cristóvão, padroeiro dos motoristas. Com alguns dias de atraso, esta é minha homenagem.
Comecei me lembrando de um aforismo de Baudelaire (será mesmo dele?) que, de memória é mais ou menos "Je est un autre" (que eu, mentalmente troquei para 'Je suis vous', depois usada como referência para uma mensagem comercial da Lotus Co. nos EUA como: "We´re You" (*).
O que importa é o esforço da lembrança, rememorar o que foi e continua sendo a maior força do meu viver: ler. Reviver, relendo e se esforçando para saber quanto foi forte e bom o lido. Fiz um exercício enorme, tentando me lembrar qual o primeiro livro que me encantou - e foram poucos nestes quarenta e muitos anos. Menos do que gostaria de ter lido: Barthes dizia que se conhece um homem por sua biblioteca e sua farmacopéia. Eis-me exposto entre meus livros. O personagem de Elias Canetti que carrega sua biblioteca na cabeça até o Auto-da-fé inexorável que a muitos aguarda num dia fatidíco. Viver entre livros, como numa floresta tropical, sujeito a mil e uma aventuras do ler-viver-ler. Aprendi a ler com minha vó, em jornais e pelo método tradicional de soletrar à nordestina.
Dona Cecília Pereira Leal de Queiroz deixou-me a alegria de um retrato na cômoda (nem cabe na parede mas ainda assim é uma lembrança doce que não dói) e as memórias do seu otimismo, que advinha da forma de viver em paz (a nordestina zen), da cordialidade e da força de superação. Não me recordo de minha mãe biológica, mas de minha avó tenho todas as lembranças. Minha mãe de criação dizia de dona Cecília, ou dona Tutu, como era conhecida no círculo pernambucano de Anápolis, que era uma mulher muito forte. Isto dito por dona Modesta é um elogio que nenhuma crônica familiar há de superar.
Então, no rodamoinho da lembrança, emerge o livro: a Bíblia, na tradução de João Ferreira de Almeida (* Ver P.S.).
Este livro do qual meu amigo César Miranda de forma feliz, resumiu:"Eis o único livro fundamental que existe, os outros virão em conseqüência dele...". Vê-se pois que uma bíblia "protestante", que permanece à minha cabeceira e sempre revisito, em centenas de anotações feitas ao longo dos anos de prática religiosa, (hoje relegada a uma missa mensal - a religião continua tendo seu lugar "em minha casa modesta da mente" - como no mestre Freud, além da minhas catedrais que são as aeronaves!).
Há livros fantásticos naquela tradução da Bíblia. E não havia os apócrifos, entre os quais o que mais me atraía era o livro de Tobias.
Alegrias miúdas se juntam a esta lembrança e lembro-me que tive a sorte de ser presenteado com o "Bugre do Chapéu de Anta" (Francisco Marins) muito cedo em minha infância em Anápolis (GO) e tive minha "quedinha" pelo `best-seller´ da época J. M. de Vasconcellos (há que confessar).
Evolui em minhas leituras no CCM, onde a bibliotecária me distinguia entre centenas de meninos e meninas; depois vieram livros de aventura, romances diversos (Balzac que interrompeu a série infidável da biblioteca de Seleções de dona Modesta), Machado (primeiro por obrigação, depois por puro gosto na minha coleção da Aguilar) a Hermilo Borba Filho, passando por Autran Dourado e Graciliano; do encantamento com Guimarães Rosa ao filial respeito aos mestres da minha terra - os goianos Carmo Bernardes, Anatole Ramos e Bernardo Élis, os poetas do GEN (grupo de escritores novos) e os outros sem grupos (lembro do meu caderno de terceiro Científico com os versos de Antonio José de Moura).
Os alemães de H. Hesse a Thomas Mann (este presença constante até hoje), passando por Musil e Herman Broch (Viena); os americanos Hemingway, Steinbeck, seguidos de Roth, Updike e Auster. Os russos: de Tolstói a Dostoievski, passando por E. Ievtuchenko e Gorki. Dos escritores de língua espanhola, de Borges a Manuel Scorza, de Neruda a Antonio Machado.
E daí, aos franceses: a alegria juvenil de ler no original o que já havia me encantado na língua de Camões, de Alexandre Dumas a Mauriac, passando por Andre Gide; de Baudelaire a Lautreamont, passando pelas "duas mil páginas do dândi Marcel Proust" (d´après Millôr) - leitura ainda em progresso nas traduções magistrais da editora Globo (Quintana e cia) dos anos 60 e as delícias de outro Marcel - o Pagnol.
Não acho que exista algum mérito mas senti só um pequeno orgulho com esta lembrança: aprendi a ler antes de ir para a escola primária, onde comicamente, meu irmão de criação implorava à velha professora (e excelente doceira baiana), dona Anézia: "fessora, lê lá, lê lá pra mim..." - a frase hoje ecoando em minha memória como em um poço profundo.
E continuei lendo, em bibliotecas, em ônibus, aviões, sob as árvores, na cama, com os pés dentro d´água (na piscina ou no Araguaia) e a cabeça nas nuvens, sempre lendo e lendo.
E às vezes sem resposta à pergunta do apóstolo S. Paulo: "entendes tu o que lês?"
Às bibliotecas do Abrigo Evangélico Goiano (AEG), do Colégio Couto Magalhães (CCM): Ah! Sou grato a elas como um filho encantado com seus pais que vão encanecendo no outono da vida.
E à biblioteca Pública de Porto Alegre, sou grato feito um viajante que recebeu uma caneca de café quente, em meio à tempestade. E o carinho de seu teto e colunas, para sempre.
E assim continuei lendo e mais querendo possuir os livros amados, para ler algum dia, alguns dos meus três mil livros que me enchem as estantes em minha casa. (Sempre com a resposta afiada de Anatole France, à pergunta impertinente: "- E o senhor leu tudo isso, M. France? - Nem sequer a décima parte. Ou por acaso o senhor usa diariamente sua porcelana de Sèvres?")
O dia do escritor, a quem rendo homenagem hoje me permitiu recordar o passado, como algo que garantidamente ficou "salvo de não-ser".
Concordo com Frankl, "ter sido é também um modo de ser, talvez o mais seguro" e o passado assim, aflora com a certeza de que deixei de correr nos recreios, de ser melhor goleiro (promessa para o Ypiranga Atlético Clube, que já tivera um Queiroz no gol), de ter músculos, um físico mais atraente para as garotas do Clube Recreativo Evangélico (CRE).
Estas as lembranças que o dia do Escritor me propicia. E continuo perguntando (ou seria minha "tagarela ansiosa" que insiste):
- Não deveria haver um dia do Leitor? Seria o meu dia.
Já que preferi ser leitor a permanecer carregando estes "remorsos gentis" de escritor frustrado (ou bissexto, como dizem outros), lego a vocês, meus amigos fiéis a culpa de não haver sonhado o suficiente para continuar escrevendo (em papel e livro), sobre o viver e o ler. Contenta-me a anotação de Viktor Frankl: "Não há romance escrito com a força do romance vivido" (ver P.S.2).
Antes de encerrar esta homenagem, parece natural que aqui deixe listas de alguns livros que me conquistaram, escritores esses gigantes da Alma que me alegraram, me fizeram pensar, questionar e mudar de direção, às vezes.
Quedo-me a algumas listas, com as quais concordo em parte. Vejam o que pode ser útil, mas continuem sobretudo lendo. Ah! e quando sobrar tempo, voltem aqui para dividir sua alegria comigo.
Escritores (e leitores) recebam um abraço fraterno do confrade BetoQ.
A Lista do Daniel Piza.
A Lista de Carpeaux.
A Lista de Harold Bloom.
Uma das minhas prediletas: a Lista em francês.
Post Post: César Miranda falava do link que lhes passei acima e não da Bíblia, mas faço minhas as palavras dele para designar o que resume este livro pra mim.
2 - A citação correta é: "o romance vivido por um homem é sempre uma realização criadora incomparavelmente maior do que aquele que alguém tenha escrito".
3 - Quase um ano depois, abro o volume "Recherche de la base et du sommet" do René Char (un livre de petit format) e encontro lá na pág. 108, sobre Arthur Rimbaud: "Je est un autre" e um comentário delicioso que me serivirá de pauta futura. 4º Domingo da Quaresma, 21 de março de 2004.(AQ)
Escrito por Adalberto Queiroz às 15:13
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