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Sábado, Janeiro 04, 2003


Retrato de dois artistas alemães e duas guerras

O interesse criado pela leitura de "Os Irmãos Mann: As vidas de Heinrich e Thomas Mann" (Nigel Hamilton, Ed. Paz e Terra, 1985) me impediu de avançar com o outro grande projeto de leitura dessa semana de férias. Mas valeu a pena, pelo painel de época que Hamilton traça para o leitor. Uma biografia que cumpre o papel de não isolar o(s) biografado(s) de seu Tempo, muito ao contrário, faz com que a gente se sinta imerso no período histórico, na intensa contradição que vai do final do séc. 19 a meados do século 20 e, sobretudo, no período entre as duas grandes guerras na Alemanha (Europa e EUA).

De Lübeck para o mundo, os dois filhos da brasileira Júlia Bruhns Mann e do cônsul (senador) alemão Thomas Johann Heinich Mann são mostrados como artistas que superam o mundo burguês para impor sua criação ao mundo, mas também como seres humanos comuns, na franqueza e na fraqueza - incluindo o fracasso das relações fraternas (ficaram brigados e sem se falar formalmente por quase 20 anos!).

A relação entre estes dois irmãos "mestiços" é mostrada em detalhes, o que inclui as rixas, os ciúmes, as contradições típicas de irmãos, as ideologias, as ações políticas (boa parte delas em campos opostos) e também a ternura e o afeto que os reúne ao fim e ao cabo de suas vidas. Um com o êxito que o Prêmio Nobel de 29 lhe trouxera (Thomas) e outro, Heinrich, pobre e quase sem nenhum reconhecimento, um exilado miserável na Califórnia, Heinrich é mantido pelo benevolente cheque mensal do irmão famoso mundialmente.

E não é apenas porque Heinrich Mann fosse "o mais fraco" que ganha a identificação do leitor, ao longo da leitura. Apesar de eu ter sido até agora leitor assíduo de seu irmão mais novo e mais famoso, Thomas, terminei comprando de Heinrich o livro " O Anjo Azul, ou A Queda de um Tirano", Estação Liberdade, SP, 2002. Confesso a vocês, meus 5 leitores: é meu primeiro volume de Heinrich; ao passo que eu tenho quase a obra completa de Thomas - muito bem contemplada pelas edições da Nova Fronteira.

Heinrich seria em futebol uma espécie de "Botafogo" dos grandes escritores "alemães" do período - e olha que são muitos e bons: Jacob Wassermann, B. Brecht, Hauptmann e Thomas pra só citar alguns ficcionistas, sem falar de Freud, Canetti etc etc.

Heinrich é a ideologia e o engajamento em tempo integral, enquanto Thomas prefere o individualismo e a disciplina da carreira de escritor e menos militância político-ideológica. Este é brindado pelos êxitos e prêmios e títulos (doutor honoris causa em pelo menos três universidades americanas e outras tantas européias, títulos de cidadania e ´chaves de cidades` aos quatro cantos), aquele com o reconhecimento dos militantes num dado período...

Heinrich por outro lado, apesar de ser reconhecido por fãs mais à esquerda morre em 1950, na Califórnia, levando uma vida miserável, dependendo de favores dos amigos e do irmão, devido a dificuldades financeiras, mas fiel a seus princípios - e de onde é reabilitado pelos esforços de Lion Feutchtwanger, que lhe permaneceu amigo fiel e organizou o arquivo americano na Universidade da Califórnia do Sul referenciado abaixo.
Tenho que concordar com Thomas, a mémória de Heinrich Mann "só se desvanecerá junto com a própria cultura e o auto-respeito da Humanidade" (Hamilton, p.520).
Para saber mais, visite:
Arquivo Thomas Mann (que eu tive a honra de visitar na década de 80), em Zürich.
Arquivo Feutchtwanger na USC


Escrito por Adalberto Queiroz às 13:22

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